quarta-feira, 4 de março de 2015

Sobre o sabor do tempo e a Semana Santa

O frenesi atual nos rouba, frequentemente, a doce possibilidade de degustar o sabor do tempo. Entre um dia e outro, resta em muitos o insosso passar de horas em rotinas repetitivas. Nossa bela tradição litúrgica nos abre para a riqueza redentora que se realiza no tempo. Comum, advento, quaresma, páscoa… sinais redentores para uma vida que se realiza na história a caminho do Eterno. No rosto profundamente Humano de Jesus, o Divino-Eterno se abre como real possibilidade para aqueles que o seguem. Celebrado no tempo da esperança em que vivemos, eleva-nos ao Rosto do Cristo, Mistério do Filho e de nossa filiação.

Assim, aproxima-se um destes fortes tempos: a Semana Santa. Nela, encontramos condensado o centro do Mistério de nossa Salvação, por isto, é conhecida pela Tradição como "Semana Maior". Com Jesus, entramos na Jerusalém corruptível, perdida em meio aos jogos econômicos e de poder. Nossa humanidade, guiada pelo Amor divino, é levada a experimentar o Mistério da Cruz; objeto do suplício maior, pelo amor ali derramado, se transmuta em entrega pela vida. Todo pecado é desarmado, pois o Dom de Deus se revela maior. Dom de um amor que não ficará encerrado no sepulcro, mas que se firma Ressuscitado como Eternidade aberta para o mundo. Verdade a ser proclamada pelas testemunhas em um Kronos que se narra enriquecendo-se no Kairós da presença do Crucificado-Ressuscitado.

Nosso padroeiro e fundador redentorista, Santo Afonso Maria de Ligório, viu no conteúdo que celebramos nesta semana dois alicerces sobre os quais construiu sua espiritualidade: Cruz e Eucaristia, Dom e Permanência. Edifício que encontra seu terceiro alicerce na beleza singela do presépio.

Celebrar a Semana Santa, portanto, é experimentar e, consequentemente, celebrar o próprio Mistério de nossa Redenção, acolhendo-o de maneira contemplativa a se desdobrar ao longo do ano. Da Jerusalém corruptível, passamos à Jerusalém Eterna, cidade-símbolo do definitivo de Deus em nossas vidas. Viva como comunidade de fé este momento. Que a Semana Santa não seja mais um feriado neste ano de sua vida, mas seja a celebração da Vida!


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

P.S.: Este artigo será publicado no próximo informativo da Paróquia Santo Afonso.

Um comentário:

  1. De maneira contemplativa Jesus se apresenta no Kronos de nossa existência, nos enviando e se fazendo presente a todo instante, nos acolhendo e nos ajudando no repouso necessário para o descanso de uma jornada longa, onde a existência não é só um momento, mas a busca diária de uma vida ativa que não se pode esquecer o próximo, pois se a vida somente se tornasse contemplativa, longe da realidade humana, longe do serviço ao próximo seria uma vida inútil e estéril. A chave está em ter a sabedoria em unir ação, contemplação e oração, sem trazer desgastes a nenhuma, união esta profunda neste tempo de reflexão, ação e contemplação, podendo neste tempo de quaresma viver de diversos modos, numa vocação concreta que cada um recebe no kairós da presença do Senhor da vida, nessa entrega total e incondicional.


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