terça-feira, 22 de maio de 2012

Silêncio

Em meio à loucura das palavras, surge um espaço repleto de sentido que se chama silêncio. Guardado no mais profundo de cada indivíduo, renegado por muitos como lugar gerador da ansiedade angustiante, constitui-se como o "pedreiro da existência" a assentar as vivências e as palavras na constituição do que costumamos chamar de identidade. Das palavras esvaziadas e das vivências automatizadas da atualidade, nascem seres de história frágil, de consciência de existir fraca...
O silêncio é, portanto, onde o outro, o diferente, o mundo, pode se realizar efetivamente em nossa história, enriquecendo-a. Antes da palavra, pausa. Depois da palavra, pausa. Como em grande espetáculo, a música da vida ressoa no silêncio final de cada música. Silêncio que antecede as palmas. Silêncio da música que ainda se degusta.
Desta forma, o silêncio não se configura como escala a ser estudada, mas desgustada por todos aqueles que sabem ouvir e se regozijar com a bela sinfonia da vida. Só a partir de uma pausa de mil compassos é que a verdadeira música, aquela em que os acordes calam no mais fundo de cada um, poderá enfim brotar.
Só no silêncio é que se pode degustar a presença do outro. Somente no mais profundo calar é que se pode sentir, mais do que ver, uma bela paisagem, um belo quadro. A fala é posterior. A contemplação silenciosa, anterior. Como da beleza de uma mãe que, antes de discursar sobre o seu pequeno, contempla-o a "nanar" tranquilo em seu regaço. No mais, o resto é "verborragia": hemorragia de palavras mortas que levam à morte da existência...

Um comentário:

  1. Excelente texto, padre! O silêncio é uma pessoa que precisa dê voz e vez em nós. Sua bênção!

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