sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nos passos de Deus...


O que dizer quando “palavrear” não dá conta!
Quando, por breve tempo, tocamos o Mistério que nos rodeia...
Graça de tocar com a alma aquilo que anteriormente já nos tocou...
Palavras são caducas, só conseguem dizer de sua pobreza
depois que o definitivo resvalou nossa pequenez...
Viver a experiência de Moisés: ver os passos de Deus...


Um dos belos textos bíblicos que sempre me encantou é o que se encontra em Ex 33,17-23. No interior de um belo diálogo entre amigos, Moisés pede ao Senhor para ver sua glória. Ver a glória de Deus é deparar-se com o definitivo e o Eterno. Mais do que admirar, é entrar no eterno. Portanto, já não pode viver aquele que viu a glória de Deus. Assim, Deus cobre Moisés com a mão e o coloca na fenda da rocha. O que o santo homem pode ver são os passos de Deus, as costas de Deus.
Esta passagem ilustra bem nossa relação com o Mistério divino. No interior de nossa humanidade, vemos os passos de Deus e, desta forma, vamos desvelando um Mistério que estará sempre passos à nossa frente. O encontro com o definitivo, todos um dia iremos ter. Enquanto participamos desta nossa realidade, vamos, como crianças, colocando os pés no seguimento daquele que está à nossa frente.
Por isso, nossa palavra sobre Deus será sempre caduca. Falamos do Mistério sempre de maneira análoga, a partir das categorias que nos são acessíveis. Nunca esgotamos Deus! Ele é pássaro que não se deixa engaiolar! Quando achamos que engaiolamos Deus nas prisões de nossos conceitos, apreendemos simplesmente uma imagem dele, nada mais. O amor de Deus é muito maior do que aquilo que podemos dizer dele.
Desta forma, nosso discurso é sempre posterior à experiência. Chamados à comunhão com aquele que nos antecede, podemos ir além do “palavrear” e tocar as barras deste Mistério. Dizemos disto depois, mas sempre a partir do falível que somos. A experiência da fé, feita na comunhão com os irmãos e com Deus, é sempre anterior ao que podemos dizer desta comunhão. Dizer é passo segundo, necessário para nossa humanidade crescer, mas nunca definitivo, cabal. Deus não está preso aos nossos conceitos e imagens sobre ele.
Alguns perderam-se e se perdem em tentativas de desvendar um deus de lógica matemática. O nosso, revelado por Jesus, é o Deus da lógica do amor, que muitas vezes rompe o preestabelecido para que a vida aconteça. É por isso que gosto tanto de observar as crianças. Elas vivem, enquanto não são contaminadas pelo vírus de uma falsa adultez, em bela abertura ao mundo, aos outros e para com Deus. Você já viu uma criança deixar de se relacionar com a outra por conta de uma pré-imagem? Eu já vi adultos fazerem isto... Crianças brincam e na liberdade da brincadeira, realmente se conhecem.
A maior verdade de nossa fé declara isto: Deus se fez homem! Não mandou uma cartilha ou um manual, mas quis conviver, manter-se Mistério encarnado em humanidade para continuar a se dizer na eternidade manifesta na Ressurreição. Vemos as ressonâncias da glória, até que esta mesma, porque ao longo do tempo pedagógico de Deus experimentamo-la, manifeste-se realidade participada por nós. Aqui, vivemos, conformando nosso caminhos nos passos daquele que vai à frente desvelando-se na alegria da comunhão de Amor...

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