quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Amor que se faz história...

"O amor te escapa entre os dedos...". Frase do desespero de um amor que se acaba, cantada por uma banda popular. É triste perceber que, na cabeça de muitos, o amor vai se tornando algo assim, fluído, sem pegas, desencarnado, sem história. Não há comunhão; não existe o outro, apenas um falso sentimento de "bem querer" alicerçado em um ego inflado que acaba por ocultar a mais sutil das violências.
Assim provocado, penso na maneira de Deus amar...

Hesed e Rahamim:

O vocábulo hebraico "hesed", comumente traduzido por amor, quase sempre tendo Deus como sujeito, explicita o modo do Amor divino. Na gama de sentidos que encontramos neste simples vocábulo, destacam-se também misericórdia, bondade e benevolência. Hesed, portanto, é amor que faz história, que se encarna, que se responsabiliza. É amor de escolha, gratuito. Amor onde o amante se abaixa na altura do amado. Na dinâmica bíblica, é Aliança (Is 55,3), é eterno (Is 54,8; 55,3; Jr 33,1; Mq 7,20). Deus acolhe um povo em seu amor, para que este povo seja sinal, presença, sua para o mundo.
Outro vocábulo hebraico, "primo" no sentido de hesed, é rahamim, que pode muito bem ser traduzido por misericórdia, compaixão. Contudo, sua raiz evoca útero, ventre materno, entranhas. Amor materno. Na maioria das vezes, este termo aparece utilizado em situações em que a vida corre perigo.
Uma das mais belas frases bíblicas que guardo no coração está em Os 14,1: "Eu os lacei com laços de amizade, eu os amarrei com cordas de amor; fazia com eles como quem pega uma criança ao colo e a traz para junto ao rosto. Para dar-lhes de comer eu me abaixava até eles".A imagem é linda: Deus se abaixa na direção da humanidade, como uma mãe a tomar o filho nos braços para o mais belo e sublime ato de carinho e proteção. Este abaixar-se de Deus é hesed e rahamim. Toca-nos com as mãos da graça. Em minha liturgia da horas, carrego um pequeno postal com a frase "Nous sommes a Dieu e à lui nous revenons" (Nós somos de Deus e a ele retornamos) ilustrado com uma singela imagem do rosto de uma criança envolvido pelas mãos maternas.


No amor de Deus, encontramos nosso verdadeiro modo humano de amar...

É hora de redescobrirmos o modo divino de amar... Penso que, apenas quando as máscaras das funcionalidades caem, é que realmente aprendemos a amar e nos responsabilizar por alguém. Lembrando os de escola aristotélica, em Deus não há necessidade. Portanto, não há explicação para a criação, a salvação e a santificação que não seja a gratuidade do amor misericordioso de Deus.
O ser humano não é objeto de ninguém. É pessoa, alguém para ser amado. O salto de qualidade no amor só acontece quando, desarmando-nos, vamos nos encontrando com aquilo que realmente o outro é e, assim, o amamos, e não com as imagens criadas por nossas fantasias e necessidades. É processo de desvelamento do Mistério que habita em cada um. À primeira vista, são nossas imagens que falam mais alto. É muito normal. Psicólogos chamariam isso de "transferência". Mas somente crescemos na medida em que os adornos caem e o verdadeiro vai ficando. Assim, o amor deixa de ser fluído, para se tornar história. E isto só acontece quando há comunhão...

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

P.S.: Acho que ainda irei modificá-lo. Escrito no calor de uma inspiração... Obrigado à amiga que, sem querer, me recordou a palavra "hesed".

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