terça-feira, 20 de setembro de 2011

Setembro: Mês da Bíblia III (cont.)

A fome: O desejo de voltar atrás.

 

No centro da moldura apresentada anteriormente, encontra-se o relato do Maná vindo do céu e das codornizes. Mais uma vez, falta o essencial para a vida. Nos dois relatos que anteriormente meditamos, faltava a água, agora, falta o alimento. O povo tem fome. Contudo, o central para a nossa reflexão é o desejo de voltar atrás. O imediato do sofrimento da fome é bem maior que a lembrança da escravidão. Se colocássemos em uma escala de valores, a liberdade é um bem maior. Mas o sofrimento imediato cega a tal ponto que o povo prefere se entregar a outros senhores. Coisa tão semelhante aconteceu e acontece em tantos recantos do Brasil, onde a fome é utilizada pelos grandes e poderosos para manipular os pequenos.  Deus, mais uma vez, não nega o seu auxílio ao seu povo. Ele é o verdadeiro Senhor de Israel e não deixará que nada lhe falte.

Conquistar a verdadeira liberdade supõe perdas. É preciso deixar algumas coisas que já não servem mais para lançar-se na direção do novo. Acontece que, na maioria das vezes, o caminho antigo parece ser mais seguro. Já conhecemos seus buracos, subidas, descidas, enfim, suas facilidades e dificuldades. Lançar-se no novo pode ser duro, mas só assim é que a vida pode continuar a fazer seu caminho de crescimento. Somente na solidariedade e eqüidade, como nos mostra o relato, é que poderemos vencer esta "tentação" do retorno.

 

Os perigos do caminho: Amalec.

 

Surge um outro povo na história: os amalecitas, um povo que não é guiado pelo SENHOR. Guiados pelo líder Amalec, colocam-se em guerra contra o povo no deserto. Esta é a primeira vez que o nome de Josué é citado. Mais tarde, este será o continuador de Moisés, terminando a caminhada rumo à Terra Prometida. O caminho periga parar. A escravidão, uma vez que os derrotados pela guerra que sobrevivessem eram escravizados pelo povo vencedor, poderia voltar. Mas Deus continua com seu povo. A vida, mais uma vez, é posta em risco no deserto... A batalha começa e Moisés, auxiliado por Aarão e Hur, se coloca no alto do monte mantendo as mãos voltadas para o céu, lugar onde habita Deus. Este gesto não é sem mais: voltados para Deus, o povo vence.

Não podemos ser ingênuos! Há muitos poderes humanos presentes em nossa cultura que lutam contra o Reinado de Deus. Contra-valores como a injustiça e a opressão são a marca destes sistemas. Muitas vezes, para seguir no caminho de Deus, nós e nossas comunidades acabamos tendo que tomar posturas "contra" a cultura vigente. O caminho de libertação é também de batalha contra aquilo que gera a morte e a desintegração do humano.

 

A organização inicial do povo: a sabedoria de Jetro.

 

Sabendo de tudo que está acontecendo, o que Deus tem feito pelo povo através da coordenação de Moisés, Jetro, seu sogro, vem ao seu encontro com a sua mulher (de Moisés) e filhos. A sabedoria do ancião sobressalta no relato. Até então, Moisés é responsável por todas as decisões do grupo. Jetro percebe que, o excesso de trabalho pode prejudicar a capacidade de discernimento do genro. É preciso uma nova maneira de liderar. Propõe um novo sistema: pessoas notáveis entre o povo, em diversas instâncias, irão ajudar na coordenação. Bem ao modo de Deus, o poder é partilhado. A sabedoria do velho Jetro é voz divina no caminho. Serão escolhidos juízes para, segundo suas responsabilidades, serem o auxílio necessário para o caminho.

Esta reflexão envolve um aspecto muito complexo da vida em comum: o exercício do poder. Toda forma de absolutismo e autoritarismo não vem de Deus. Deus é o único absoluto e a verdadeira autoridade. Tudo o mais nos vem dele. A pergunta essencial a ser feita neste momento é: como vivo minhas funções de coordenação? Como coordeno e me deixo coordenar? Partilho ou retenho?

 

Como conclusão.

 

Fizemos um bom caminho de reflexão. Questões podem ser levantadas a cada tópico. O mais importante é que a experiência do caminho feito por Israel nos provoque e às nossas comunidades no sentido de uma vivência mais profunda da realidade do Reinado de Deus entre nós. Vocês vão perceber que não me centrei em um estudo técnico do texto. Contudo, utilizando destes conhecimentos, busquei uma reflexão que toque a vida; que deixe a vida falar. Este esforço não para aqui. Questões que não foram abordadas neste texto poderão surgir no momento dos encontros. Deixe-as vir e trabalhe-as! Que Deus continue nos inspirando no caminho!


--
P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Nenhum comentário:

Postar um comentário