quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Preparando outubro: Mês das missões...

A feminina docilidade da fidelidade

O mês de outubro é chamado, no interior da dinâmica eclesial, do mês missionário. Nele refletimos nossa realidade básica, como batizados que somos, de ser missionários. Aproveito, neste pequeno texto, para homenagear e lembrar tantos que gastaram e gastam sua vida na missão. Aqueles que assumiram a constante realidade de ser "estrangeiros" pelo Reino.
O missionário experimenta, pelo Reino de Deus, o constante deslocar-se, sabendo que não há pátria definitiva neste mundo. O abraço de Deus é nossa definitividade, ou seja, nosso sentido último do caminho. Assim, abraça-se uma solidariedade universal, encarnada na constante inconstância de estar neste ou naquele lugar para onde a missão, o caminho do Espírito, possa conduzir. De maneira especial, aproveito para homenagear as mulheres missionárias. Tantas leigas e religiosas que deixaram e deixam sua terra para levar a verdade de Vida que vem de Deus. Embora alicerçada em uma cultura marcadamente masculina, a história bíblica traz inúmeros exemplo de mulheres assim. Por exemplo, o trabalho missionário de Paulo encontrou em mulheres o essencial apoio para acontecer. Neste pequeno artigo, valorizaremos a pequena fala de uma simples mulher do Antigo Testamento, Rute, que expressa a fidelidade de vida que se espera encontrar em cada um que assume a missão.

Brevemente, a história de Rute:

Tudo começa com a migração da família do casal Elimelec, Noemi e seus dois filhos, Maalon e Quelion. Como tantos de nossa região, partiram para terra estrangeira em busca de condições de vida, fugindo da escassez de recursos e, conseqüente, fome. Nos campos de Moab, os rapazes tomam como esposas mulheres do lugar: Rute e Orfa. Vem que acontece falecer Elimelec, Maalon e Quelion. Naquele contexto, as mulheres da família passam à dura realidade da solitária viuvez. Não se trata apenas de saudade dos que partiram, mas de desamparo total.
Ao retornar para o antigo lar, em busca do auxílio do Go'el, o parente mais próximo que poderia retirá-las do desamparo, Noemi despede as noras, ainda jovens, para que fiquem em sua terra e possam casar-se novamente. Orfa parte, mas Rute permanece. Permanece com a sogra em uma profunda solidariedade na dor. Mesmo estrangeira, sabe que seu lugar é ao lado de Noemi, cuidando daquela que está desamparada.
Voltando à antiga terra de Noemi, a jovem Rute coloca-se na tarefa de "respigar". Tarefa dos pobres que vem atrás dos ceifadores no campo colhendo o refugo, como tantos catadores que vemos pelas ruas de nossos centros, recolhendo aquilo que já não mais se quer. Na dureza da vida, estão juntas.
Contudo, a mão do Senhor não as abandona. Booz, homem justo e parente distante de Elimelec, se compadece e se apaixona por Rute e exerce o direito do resgate após a desistência do primeiro na função de go'el. Um homem bom, que não tratará a estrangeira Rute como parte do espólio, mas que a integrará, e à sua sogra, na própria família. A estrangeira, extrapolando os parâmetros daquela cultura, se torna lugar do resgate.

A fidelidade de Rute:

"Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me afaste de ti; porque, aonde quer que tu fores, irei eu e, onde quer que pousares à noite, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus.  Onde quer que morreres, morrerei eu e ali serei sepultada; me faça assim o SENHOR e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti." (Rt 1,16-17)

O belo texto acima citado é pronunciado por Rute ao Noemi tentar despedi-la. A solidariedade fiel, mesmo em meio ao desamparo, enobrece a figura da simples estrangeira. Ela poderia voltar, seguir seu caminho, como fizera Orfa, mas prefere ficar com sua sogra, Noemi. Escrevendo este texto, rezei profundamente, pois a firme docilidade feminina de Rute é reveladora da profundidade do que é missão. Todo missionário escolhe, mesmo podendo estar em outro lugar, mais confortável, viver a intempéries do tempo junto com o povo, para que a realidade do Amor possa acontecer. Comer de seu pão, viver sua vida, morrer sua morte. A definitividade da fidelidade basta!
Todo missionário se sabe diferente do povo que missiona. Diferente, não superior ou inferior. Escolhe a fidelidade da vida nos moldes de Deus. Revive o cotidiano da Aliança. Nesta diferença, cresce e faz crescer na comunhão, mesmo em meio ao desmazelo da realidade. Neste sentido, a experiência se amplia na direção de tantos que encontram a terra estrangeira ao lado de uma cama de hospital, de uma pessoa que sofre no desamparo e na solidão... Alguns serão chamados a, efetivamente, partir para outras terras. Outros tantos, viverão a missionareidade cotidiana de deixar o próprio mundinho na direção daqueles que precisam sentir mais próxima a Palavra de Deus.
Que a presença do Espírito nos coloque na fiel docilidade feminina da comunhão de vidas na missionareidade cotidiana da Verdade de Deus! Que a presença e o exemplo de tantos missionários da solidariedade nos leve, com as mãos cheias de boas sementes, às searas do Reino ainda não cultivadas ou maltratadas!

"Leva-me aonde os homens necessitem de suas palavras, necessitem de força de viver. Onde falte a esperança, onde tudo seja triste, simplesmente, por não saber de ti".
Trecho da canção "Alma Missionária".

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

P.S.: Em primeira mão, partilho este texto que é o primeiro esboço (ou definitivo) do texto que irá ser publicado no jornal de minha paróquia em outubro próximo.

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