sábado, 9 de abril de 2011

Cecília Meireles - Cantar

Cantar de beira de rio:
água que bate na pedra,
pedra que não dá resposta.

Noite que vem por acaso,
trazendo nos lábios negros
o sonho de que se gosta.

Pensamento do caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas não vem.

Passam luas - muito longe
estrelas - muito impossíveis,
nuvens sem nada, também.

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.

A água pelo campo,
mas o campo era tão triste...
Ai!
Cantar de beira de rio.

2 comentários:

  1. Muito bonita essa poesia da Cecília Meireles.
    Agora, uma que eu adora:


    Sugestão

    Sede assim — qualquer coisa
    serena, isenta, fiel.

    Flor que se cumpre,
    sem pergunta.

    Onda que se esforça,
    por exercício desinteressado.

    Lua que envolve igualmente
    os noivos abraçados
    e os soldados já frios.

    Também como este ar da noite:
    sussurrante de silêncios,
    cheio de nascimentos e pétalas.

    Igual à pedra detida,
    sustentando seu demorado destino.
    E à nuvem, leve e bela,
    vivendo de nunca chegar a ser.

    À cigarra, queimando-se em música,
    ao camelo que mastiga sua longa solidão,
    ao pássaro que procura o fim do mundo,
    ao boi que vai com inocência para a morte.

    Sede assim qualquer coisa
    serena, isenta, fiel.

    Não como o resto dos homens.

    ResponderExcluir
  2. Valeu Nair. Obrigado por partilhar este belo poema.

    ResponderExcluir