quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Com São Geraldo, aprendemos...

Partilho com vocês este texto que foi publicado completo no "Nossa Família", da São José de BH, e parte dele no "A caminho com São Geraldo", aqui de Curvelo.


Os santos nos guardam...

 

Os santos são guardiões de nossa fé. Vamos entender melhor esta afirmação: a Igreja, ao elevar algum fiel às honras dos altares, percebe que, em sua vida, aquela pessoa experimentou, de maneira singular, o Mistério do Cristo que nos leva ao Pai. Assim, propõe o seu exemplo a todos os outros cristãos, nos diversos tempos que se seguirão, como caminho a inspirar suas vidas (SC 104). Portanto, eles nos guardam na fé. Como nossos predecessores, apontam-nos para o essencial de nossas vidas: o Mistério da Trindade com a humanidade. Mostram-nos o caminho bom a ser seguido e atualizado em nossa história a partir das interpelações que nos fazem os sinais do tempo em que vivemos.

Assim aconteceu com São Geraldo Magela, este simples irmão redentorista, nascido entre os pobres da singela cidade italiana de Muro. Um pequeno para o mundo, mas grande aos olhos de Deus! Até os dias de hoje, este grande santo inspira, com o seu exemplo, a tantos homens e mulheres no seguimento discipular a Jesus Cristo. Tendo esta consciência, cabe-nos, agora, pontuar alguns aspectos que a história de Geraldo provoca em nosso coração.

 

Um devoto de Nossa Senhora nunca se perde...

 

Esta frase é de nosso fundador, Santo Afonso. Para entendê-la, é preciso ter claro que olhar devotamente para a Mãe de Jesus deve fazer em nós nascer o desejo de seguir sempre mais de perto o Redentor. Ela, que em sua vida terrena teve sua história moldada pelo querer de Deus, mostrou-se sempre fiel, desde o acolhimento de Jesus em seu seio pela ação do Espírito Santo, acompanhando as caminhadas da vida pública de Jesus, manifestando-se forte na dor da cruz, permanecendo até o tempo das primeiras comunidades cristãs.

São Geraldo foi um profundo devoto desta tão bela Mãe. Reza a história que Geraldo, em sua juventude, colocara um pequeno anel no dedo de uma imagem da Virgem, entrelaçando sua história à de Maria. Um gesto singelo, mas profundo. Em sua vida, São Geraldo mostrou-se, como Maria, discípulo sempre fiel de Jesus, compartilhando o mais profundo de sua intimidade com o "Amigo dos amigos". Como Maria, discípulo fiel.

 

As grandes virtudes da fé cristã...

 

No finalzinho do capítulo 13 da Primeira carta de São Paulo aos Coríntios, o Apóstolo nos apresenta as três grandes virtudes da existência cristã no tempo presente: fé, esperança e caridade. Essas três qualidades essenciais vão transparecendo na medida em que a vida daquele que crê vai se conformando à vida de Jesus Cristo. Passaremos, agora, a refletir como isso se deu na vida de São Geraldo.

 

Pela fé, ver a realidade com os olhos de Deus...

 

Do ponto de vista cristão, podemos perceber a fé como a forma como o ser humano, no exercício de sua liberdade, vai se descobrindo e respondendo ao chamado a uma relação filial com Deus, através de Jesus Cristo, na alegria do Espírito Santo. Desta maneira, quando voltamos nosso olhar para a vida de nosso querido irmão São Geraldo, percebemo-la como constante e vivaz resposta à Trindade Santíssima. Sua frase maior, "Aqui se faz a vontade de Deus, como Deus quer, enquanto quiser", fixada na entrada de seu quarto, expressa muito bem o teor de sua vida.

Profundo adorador de Jesus Eucarístico, aos pés do Mestre, derramava sua vida num profundo diálogo de intimidade. Desde muito pequeno, nas "brincadeiras" com o Menino Jesus, manifestava que sua relação com o Senhor moldaria significativamente todo o seu viver. Durante sua curta vida foi conhecido como o "louquinho de Deus", dada a intimidade que manifestava com aquele que era o seu tudo. Assim, a vida de São Geraldo nos ensina, essencialmente, que a fé é relação com Deus que molda, a partir de si, a percepção da própria realidade e sua trama de relações, gerando um contexto libertador e, por isso, profundamente redentor.

 

A esperança firme que não decepciona...

 

Uma vida moldada pelo Amor de Deus só poderia encontrar em Deus mesmo o seu fim (final e finalidade). Faço menção a apenas de duas passagens significativas: "a conversão do inescrupuloso" e a "confiança na calúnia".

A primeira passagem nos remete a um encontro de São Geraldo com um homem que tinha como o essencial de sua vida a busca de riquezas. Nosso querido irmão, interpelando este homem, chama-o para a caça de um grande tesouro. Depois de caminhar alguns minutos floresta a dentro, parando, São Geraldo afirma terem chegado o lugar onde o tesouro se encontrava. Voltando-se para o homem, retira o crucifixo do cinto de seu hábito e o apresenta como sendo o único, verdadeiro e importante tesouro: o amor de Deus que se manifestou em Jesus na cruz. Diz a história que, comovido, o homem converteu-se e passou a buscar aquilo que realmente é importante.

O segundo episódio diz respeito ao momento em que Geraldo, caluniado, foi afastado de suas funções até que tudo se esclarece. Obediente, mesmo sofrendo, não abriu a boca, confiando na justiça e na misericórdia de Deus que conduzira sua vida até aquele momento. Algum tempo se passou, e a verdade apareceu. Inocente, recebeu o pedido de desculpas de seus irmãos e, para sua alegria, foi reintegrado às suas funções como religioso.

 

A caridade, amor a serviço dos irmãos...

 

O amor só se torna verdadeiro na medida em que se realiza em atos de amor. O conceito de amor fica apenas como palavras soltas, se não se encarnar em uma vida que se realiza amando. O amor é concreto! Assim foi com Geraldo. Um amor profundo à Trindade que se manifestava no encontro com cada homem e mulher na concretude da realidade.

Como exemplo, isto pode ser bem visto quando, ao sair na porta do convento para distribuir o pão aos pobres, Geraldo é elevado em êxtase ao ouvir um flautista tocar a cantiga afonsina "A tua vontade e não a minha". Aquele que se encontra verdadeiramente com Deus, deixa sua vida ser transformada na direção dos irmãos. Não se trata de um amor falsamente "piedoso", mas sim, concreto, daquele que "põe a mão na massa" junto com os outros.

 

Como breve conclusão...

 

No início deste breve texto, dissemos que os santos são guardiões de nossa fé, pois, com suas vidas, inspiram-nos no seguimento do bom caminho que nos conduz à comunhão com a Trindade. Depois de refletirmos um pouco sobre a vida de nosso querido São Geraldo, podemos guardar no coração algumas inspirações: a espiritualidade geraldina baseia-se, principalmente, na comunhão de vida com Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo.

Geraldo viveu sua breve existência aqui na terra buscando viver esta comunhão que, por sua vez, como vimos acima, levava a uma profunda comunhão com a humanidade, sua irmã. Uma comunhão que toca os limites da intimidade. Eis aí o grande ensinamento da vida de São Geraldo: buscar viver na intimidade com Deus-Trindade. Precisamos muito crescer neste sentido, principalmente em uma cultura que muitas vezes nos quer conduzir à superficialidade. Viver cada dia, cada momento, com cada pessoa, na presença de Deus, buscando a justiça, a paz e a fraternidade.

Durante este mês geraldino, busquemos pedir a Deus esta graça. Que a cada dia, procuremos crescer na intimidade com Deus, abrindo-nos, sempre, à comunhão fraterna com os irmãos. Que a justiça do Reino esteja em nossos corações como norma de vida. Que a presença do Cristo nos transforme em sua semelhança pela graça do Espírito Santo em nós.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

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